o rit(o) contemporâneo

4 05 2010

O rito na arte rupestre estaria na ligação do desenho como uma alegoria da realidade/ necessidade. Ao projetar a imagem de um animal na parede, o homem primitivo acreditava que isso o ajudaria a ter sucesso na caça pelo alimento. Esta relação cognitiva entre a realidade e o pictórico sugere, portanto, uma ancestralidade que acompanha a história da evolução humana.

O simulacro integra neste contexto, uma linha de raciocínio que liga o neolítico ao pós-moderno, e a partir desta relação de transferência entre a imagem e a coisa em si, que se encontra uma das fagulhas que mantém acessa a falta como conflito primordial, lacuna entre aquilo que é, e aquilo que se pretende.

Entendendo o desejo como o leitmotiv entre a necessidade de sobrevivência e o imaginário, é que podemos aprofundar nas características da hiper-realidade…

 

“[…] quanto à vantagem e ao dano, eles correm um em direção ao outro, invertem-se um no outro. O homem está entre um e outro, mas não como espectador passivo. O estar – entre quer dizer ter sempre a possibilidade de encontrar-se em uma dimensão mediativa e interrogativa em torno à vantagem e ao dano, ao útil e ao inútil, às infinitas dissimulações do mais-que-sagrado no labirinto do mundo.”  Mario Perniola-Mais-que sagrado Mais-que-profano; P.15.


Em suma, discutimos a relação entre extremos através do caminho do meio; a cada ato útil conjuga-se uma ação ritual…

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Outros critérios…

25 08 2009

semprecrescentequando se evaporou a camada de orvalho que caíra, apareceu na superfície do deserto uma coisa miúda, granulosa, fina como uma geada sobre a terra. Tendo visto isso, os israelitas disseram entre si: “que é isso? “.

Pois não sabiam o que era. Disse-lhes Moisés: “Isso é o Pão que Iahweh vos deu para vosso alimento. […] Cada um colha dele quanto baste para comer, um gomor por pessoa […]”

E os israelitas assim o fizeram; e apanharam, uns mais, outros menos. quando mediram um gomor, nem aquele que tinha colhido menos encontrou menos: cada um tinha recolhido o  quanto podia comer.

Moisés disse-lhes: “Ninguém guarde para a manhã seguinte”. Mas eles não deram ouvidos a Moisés, e alguns guardaram para o dia seguinte; porem deu vermes e cheirava mal. […]

A casa de Israel deu-lhe o nome de maná. Era […] [de] sabor como bolo de mel.

Disse Moisés: “Eis o que Iahweh ordenou: Dele enchereis um gomor e o guardareis para para as vossas gerações, para que vejam o pão com que vos alimentei no deserto […] Arão o colocou diante do testemunho para ser conservado.  

* Êxodo, cap. 16 

Depois de ler essa passagem , parei e pensei como o maná era parecido com a arte contemporânea: não apenas por ser um enviado de Deus [Iahweh], ou por ser um alimento do deserto, ou por ninguém conseguir compreendê-lo bem – pois “não sabiam o que era”. Nem mesmo porque uma parte dele foi imediatamente posta num museu – “e o guardareis para as vossas gerações ; tampouco porque o seu gosto permaneceu um mistério, uma vez que a frase aqui traduzida como “sabor como bolo de mel” é na realidade uma suposição; essa palavra hebraica não ocorre em nenhum outro lugar na literatura antiga e ninguém sabe o que ela realmente significa. Daí a lenda de que maná tinha o sabor que cada um desejava; embora viesse de fora, seu sabor na boca era invenção de quem o provasse.

Mas o que decidiu a analogia com a arte moderna, para mim, foi esta Ordem: colher do maná todos os dias, de acordo com o que for comer, e não para conservá-lo como uma garantia ou investimento para o futuro, fazendo da colheita de cada dia um ato de fé. 

STEINBERG, Leo p. 36-2008